Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
Lado errado*

É muito fácil estar no momento errado.

Existir num presente completamente desconexo da realidade que é a que nos envolve.

O momento errado na nossa realidade, é aquele que nos faz duvidar de tudo. Desacreditar a nossa vida, na realidade há muito tida como adquirida. E quando o momento errado acontece, o mundo fica de pernas para o ar.

 

Passaram os anos. Provavelmente menos, do que aqueles que realmente pareceram ter passado. E com o passar dos anos, quantos tenham sido, as Meninas crescem e os Meninos fazem-se homens.

A mente, no entanto, é um lugar estranho. Estranho instrumento! À velocidade da luz, esquece o presente, esquece os anos que passaram, esquece a realidade que é a sua e, sem que consiga entender bem o que a motiva, reconhece apenas o passado, como se esse pertencesse ao ontem e hoje,  seja mais um dia. Tão poderosa é a mente, que faz parecer a vida que vivemos no hoje, a realidade, um sonho estranhamente longo, do qual estamos a acordar para podermos retomar aquele caminho, que sempre nos perguntámos onde nos levaria, mas depois abandonámos.  A mente é tão poderosa que nos ilude. E a realidade que habitamos, no presente, é tão manhosa, que conspira, abrindo o caminho, para o encaixe perfeito de um momento errado. E só acreditamos no sinal, que é o momento errado, porque a nossa realidade nos traiu.

 

Naquela dia, ela acordou com uma daquelas enxaquecas horríveis, daquelas que nos fazem ver toda a gente pela metade, tal é a dificuldade em abrir os olhos. Mal conseguira pregar olho, com a enorme discussão da noite anterior.

Na realidade, é que já não sabia o que fazer. As mesmas discussões repetiam-se vezes sem conta, várias vezes ao dia, e isso estava a esgotá-la. Todos os dias se convencia mais de que, o regresso à calma e pacificidade do Alentejo, que estava a ser tudo menos calmo e pacifico, fora uma péssima ideia.

A Menina, que agora, já era uma Mulher, estava a sufocar aos poucos. Já não suportava a senhora da mercearia, o padeiro da vila, os homens do talho...Suportava menos ainda os constantes jantares e almoços de família, a que tinham de comparecer, fingindo estar tudo bem entre os dois.

Ainda assim. de tudo, o que mais detestava, era a perseguição diária. A obsessão em saberem que fazia, quando fazia e onde o fazia.

Estava habituada ao frenetismo da cidade grande e, na verdade, sentia falta de ser apenas mais uma no meio da correria da multidão.

 

Naquela manhã, acordou, respirou profundamente. Era sexta-feira, e ele ia para fora durante o fim-de-semana. Alívio, foi o que sentiu.

Podia respirar. Podia ser Menina por umas horas.

 

Um momento errado surge, invariavelmente, num timing perfeito. Duas pessoas que se desencontraram há muito, e perderam a vontade de se procurar. Duas pessoas que se neglicenciam diariamente, por terem esquecido o motivo de estarem juntas. Duas pessoas que se abandonaram, mas não têm coragem de partir. Duas pessoas que, costumavam ser uma família, mas se tornaram seres unicamente individuais, sem capacidade de olhar mais além que os seus próprios umbigos.

Uma realidade perfeita para um momento errado. Sobretudo, se nessa realidade se encontra uma Mulher, dentro de si, ainda Menina. Por vezes boa, mas outras tantas, Má.

 

'Parece que as notícias no Alentejo não correm assim tão depressa! Encontra-te comigo, esta noite. :)'

Quase deixou cair o telemóvel, tal foi o choque provocado pela mensagem recebida. Não tinha o número gravado, e nem era preciso. Sabia perfeitamente de quem se tratava.

Passaram os anos...não passaram tantos assim. Sentiu o ontem a chegar.

Com as mãos ainda a tremer, embora sorrindo, escreveu:

'Apareces sempre nas piores alturas!'



publicado por Menina Boa às 12:24
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Domingo, 16 de Outubro de 2011
Para virar uma Menina Boa, basta um Menino Mau - The untold story Part III

A Menina Boa seguia em passo acelerado pelo corredor, segurando livros e cadernos, apressada por já estar atrasada para a primeira aula da manhã, quando sentiu um forte encontrão que a fez derrubar tudo. O Menino prontamente se baixou, apanhou os livros e cadernos do chão, e levantou-se para lhos devolver. Ela estava furiosa e pronta para desfiar um chorrilho de barbaridades e de adjectivos pouco simpáticos. O que aconteceu no momento seguinte deixou-a sem reacção:

"Olha quem ela é! A menina do meu mano...Sabes, ficas feia com esse ar tão zangado!"

O Menino Mau sorriu, e seguiu o seu caminho sem esperar resposta, sem que ela tivesse tempo de reagir de que forma fosse. Sentiu-se corar enquanto o observava a afastar-se no corredor.

A Menina Boa assistiu apenas à primeira, das que viriam a muitas aulas, onde o seu corpo estava fisicamente presente, porém a sua mente vagueou por aquele 'encontro imediato' enquanto procurava entender o que acabara de acontecer. Em simultâneo, mistas sensações a invadiam ao reviver a petulância, o tom de provocação, distinto na afirmação do Menino Mau.

 

""""""

 

"Nem vais acreditar em quem ia derrubando, agora mesmo, no corredor!" - Disse ele assim que entrou na oficina, para uma qualquer aula prática do curso de electricidade.

"Quem?" - Perguntou o amigo. O tal amigo, que a esta altura ela não fazia ideia que tinham em comum, e que seria o elo de ligação entre os dois. Vamos chamar-lhe Menino Bom.

"A tua amiga, aquela da discoteca,  no ano passado! Muito bem maninho, não está nada mal..." - O Menino Mau sorria, ao relembrar como tinha deixado desconcertada a Menina Boa. Sabia, embora não o dissesse, que encontrara um novo brinquedo, um alvo para as suas provocações e que iria aproveitar-se da situação no ano que estava a começar.

O Menino Bom adivinhava-lhe os pensamentos.

"Amigo, nem penses nisso! - Retorquiu-lhe - Ela não é dessas. Acho que tem namorado e tudo. O que se passou connosco foi só resultado dos copos, e porque ela não estava muito bem na altura. Senão, nem me tinha dado bola. É uma boa miúda, sabes? Mesmo!"

O Menino Mau voltou a sorrir. Nada o faria mudar de ideias.

"Mano, elas são sempre boas miúdas...Mas só até descobrirem que do outro lado se está muito melhor!"

 

 

 



publicado por Menina Boa às 21:45
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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011
Para virar uma Menina Boa, basta um Menino Mau - The untold story Part II

Corria o ano de 2004.

Depois de um Verão alucinante, ao estilo de uma Menina que ainda era Boa, chegou Setembro, trazendo consigo o primeiro dia de aulas. O seu entusiasmo era quase palpável. Ela estava a iniciar o 12º ano, repleta de objectivos e planos para o futuro.

Ia subir a sua média de 15.7, aplicar-se e participar em todas as aulas. Ia envolver-se mais activamente no Clube de Debates, e reforçar a sua colaboração com o jornal da escola, onde mantinha uma coluna de opinião e era responsável pela Agenda Cultural. Ia estudar mais do que nunca e, quando Junho chegasse, ia arrasar nos exames de acesso à faculdade. Ia ingressar em Direito, na Universidade de Lisboa, tornar-se advogada e conquistar o mundo.

Quando Setembro chegou, do alto dos seus 17 anos, acabados de fazer, a Menina que ainda era Boa, sentia a confiança de quem tem o Mundo fechado na sua mão, e basta abri-la para que se encha dele.

 

 

Corria o ano de 2004. Depois de um Verão recheado de encontros casuais, engates sem importância e enroscanços, em praticamente todos os refúgios de casais conhecidos na sua terra e arredores, chegou Setembro, trazendo também a Ele, o primeiro dia de aulas.

Nunca fora um aluno interessado, os seus 19 anos em contraste com a frequência no 11º ano, espelhavam isso mesmo. Optara por frequentar um curso técnico-profissional, novidade na altura, o único disponível na escola secundária. O futuro não o preocupava particularmente, não era tão pouco um assunto que lhe interessasse debater.

O Menino Mau era o típico menino sem grandes ambições na vida, preso na fronteira entre o fim da adolescência e o início da idade adulta, e que se recusava a dar o derradeiro passo.

O Menino Mau era o típico menino que, por mais anos que passassem, ia sempre ser o menino cujo magnetismo era tão real quanto um braço, uma perna ou outro membro do corpo humano.



publicado por Menina Boa às 15:22
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Para virar uma Menina Boa, basta um Menino Mau - The untold story Part I

Quando o único amigo que alguma vez tiveram em comum lhe ligou para dar a notícia, foi como se uma bomba tivesse implodido dentro de si.

Passaram pouco mais de quatro anos desde o último encontro entre os dois e nessa última noite ele disse-lhe:

'Feia, estás na mesma!' - E sorriu, em tom de provocação.

Terá sido das poucas palavras que trocaram, sendo a ânsia que sentiam um pelo outro tão forte, que mal conseguiram fugir para um qualquer local desprovido de gente e poderem estar sós.

Na altura haviam passado dois anos desde o disfuncional e sórdido relacionamento que mantiveram, e que acabaria por envolvê-los numa teia de atracção e estranha dependência a qual pareciam não conseguir, ou querer, abandonar.

Um breve flash desse reencontro, fê-la sorrir.

Havia tantas coisas que nunca conseguira dizer-lhe. Os perigosos jogos emocionais entre os dois, o medir forças, a superioridade dele em relação a si, nunca lhe permitiram falar abertamente sobre o que lhe ia na mente.

E de repente, apercebeu-se do ridículo da situação. Apercebeu-se do ridículo receio que se apoderava de si sempre que considerava pôr os jogos de parte e falar apenas sobre os dois.

Subitamente apercebeu-se que o homem que marcou a sua vida, que ajudou a definir parte de si, que a fez descobrir-se e ao mundo, estava prestes a desaparecer sem nunca ouvir o que ela sentia e tinha sentido, desde o primeiro momento em que trocaram um olhar cúmplice durante um insignificante teste de Português.

Não podia permitir que isso acontecesse.*



publicado por Menina Boa às 00:31
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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
Era uma vez...

Vivia-se o ano de 2006 e eramos mais felizes do que nunca.

Melhores tempos da nossa vida...definitivamente!

 

Vivia o ano de 2006 e o mundo girava à minha volta. Ou talvez, girasse eu à volta do mundo.

Não! Em 2006, giravamos em perfeita sintonia. Sem falhas, ou imperfeições.

 

Em 2006, tinha um namorado 'a sério'. Descobri o meu amor. Descobri a incerteza, o receio de me 'entregar' a alguém. Confiar, acreditar. Mergulhar no prazer do infinito desconhecido. Correr riscos. Explorar o conceito de um 'nós'.

O mais próximo de perfeição que alguma vez viveria.

 

O ano era 2006 e eu tinha uma amiga. Não, eu tinha uma irmã.

Ela tinha um namorado. Ela nunca tinha acreditado em nada. Ela nunca tinha acreditado em ninguém. Nunca tinha confiado, nunca se tinha entregado a ninguém. E a minha amiga nunca tinha podido dar-se ao luxo de crer ou planear um 'amanhã'.

 

Viviamos o ano de 2006 e, pela primeira vez nas nossas vidas, algo fazia sentido. Todo o sentido. O dia seguinte não era um mito, era real.

Viviamos em 2006. Vivemos o ano das nossas vidas.

Sem preocupações demasiadas, sem responsabilidades de maior. Sobretudo, sem drama. O peito não doía.

 

Foi em 2006.

 

Nem sequer foi assim há tanto tempo.

 



publicado por Menina Boa às 16:19
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
Adeus Conto de Fadas

'Típico desse teu gesto mimado. Parece que pressentiste o meu último acto de abandono e não quiseste que o terminasse da minha maneira. Parece que o último gesto tinha que ser teu.
Quando na pessoa que és já não existe qualquer réstia de ti mesmo. Quando já nem existes. Nem um pouco de ti sobrou e nem um pouco de ti esteve ali na última noite. Sabias que eu não ia fugir. Na realidade de hoje nenhum de nós existe. E no entanto, o beijo não mudou nem um pouco. Não perdemos a sintonia de beijar.
Perdi-me de mim. Perdi-me de ti. Hoje, posso afirmar que não te quero encontrar. Quando me perdi de ti, procurei-te sem fim. Quis encontrar-te para voltar a descansar e sentir-me segura no teu abraço.
Mas esse tempo já passou há muito. Porque depois encontrei-me, fiz-me mulher e descobri que o que me prendia não passavam de recordações. Memórias de alguém que conheci e me fez rir como nunca. Alguém que não existia mais. Tal como eu também não existia.

Sempre que me tentei afastar por fim, tu aparecias e teimavas em não deixar-me libertar. Típico do teu gesto mimado. Não me querias mas eu tinha de continuar a pertencer-te. Insistias em prender-me na ilusão de que, apesar de tudo, continuávamos a amar-nos.
E lá ia a minha sanidade sempre tão frágil.

Odiei-te por me olhares quando estavas com alguém. Odiei-te por cada conversa de circunstância. Odiei-te sempre que me sentia na obrigação de te cumprimentar e sorrir para ti. Odiei todos os falsos sorrisos com que nos presenteámos mutuamente.
Odiei que as nossas músicas se tornassem as vossas músicas.
Mas o que mais odiei sempre foram os tais olhares. Odiava que toda a gente viesse ter comigo para falar sobre ti e sobre a forma como continuavas a olhar-me. Odiei sempre que estava em qualquer sítio e tu aparecias, que toda a gente chamasse a atenção. Odiei que te tivesses convidado para ir jantar a minha casa e todas as mensagens escritas que me enviaste. Odiei que tivesses dito que o powerpoint te atrofiou, numa altura em que eu me sentia bem comigo e com o mundo.

Príncipe, odiei ter-te feito chorar. Odiei ter-te magoado com a história do D.. Odiei ter-te mentido. Odiei que tenhamos estado juntos quando ambos nos odiávamos. Odiei ter colocado o primeiro ponto final. Odiei ter sido a primeira a trair o nosso amor. Odiei que no fundo tu sempre tivesses sabido embora eu sempre tivesse negado. Odiei que te afastasses de mim e odiei-me por ter imediatamente arranjado um escape para que te magoasse antes que me magoasses a mim. Odiei ter-te desiludido. Odiei ver aquelas mensagens no teu telemóvel. Odiei ter sido a primeira a trair e depois não saber lidar com as consequências, com as tuas traições. Odiei aquele fim-de-semana que passaste sem dizer nada e até me mentiste. Odiei tanto e tantas coisas que nem sei!

Odiei ver o brilho inocente dos teus olhos perder-se por minha causa.
Odiei todas as mentiras.
Odiei ter perdido o nosso conto de fadas.

E no entanto, ‘onde tudo morre, tudo pode renascer’
Eu renasci. Melhor. Sou uma pessoa melhor por ter perdido toda a raiva que me consumia. A raiva de ti, de mim. De nós, por termos falhado. Assumi perante mim mesma que falhei, que magoei e não fui apenas magoada. Assumi os meus erros e seria dessa forma incapaz de continuar a odiar-te. Consegui perdoar-me e assim, perdoar-te também. Entendi que não tinha o direito de recriminar-te nem tão pouco julgar qualquer das tuas atitudes. Não foste melhor ou pior do que eu.
Se me magoaste, eu magoei-te.
Se me traíste, eu já o tinha feito.
Se te afastaste, eu também me afastei.
Se acabou, fui eu que tomei a decisão.

E ao fim ao cabo, desde o início que a nossa relação tinha um prazo de validade. Foi perfeito. Parecíamos feitos um para o outro, príncipe.
Percebo agora que nada temos a lamentar. Na realidade, conseguimos por momentos a felicidade extrema. O amor puro e verdadeiro. Descobrimo-lo em conjunto. Encaixávamos na perfeição. E explorámos a nossa perfeição ao máximo.
Foi feia a forma como terminou e esteve longe de fazer jus ao casal que fomos. Perdemos tempo demais em discussões pós-relação e despique para tentar descobrir quem magoava mais e melhor. (Parece-me que magoaste mais, embora eu tenha magoado melhor. Lembras-te de quando te falei no anúncio da toyota yaris?) Que estupidez.
E tudo porque nos recusávamos a seguir em frente.
Eventualmente conseguimos dar esse passinho. É verdade que eu demorei um pouco mais. Bastante mais.
De há uns tempos para cá que o meu maior desejo era o fim das aulas. Deixar finalmente de ser obrigada a ser bombardeada diariamente por comentários acerca de ti, de mim e de nós!
Quando a última semana chegou e dei de caras contigo e com a tua namorada, soube que não ia terminar assim facilmente. Sexto sentido talvez.

Príncipe, acabou. E acabou tal como estava escrito desde o início. Eu vou para Lisboa e tu ficas a terminar o teu curso e procuras a tua felicidade nessa cidade que foi testemunha do nosso amor.

A S. e o L.. O L. e a S.
Sem o Tiago nem a Beatriz. Sem a casa no Porto.

Sonhos de meninos, príncipe. Meninos que um dia fomos. O que tivemos preparou-nos para o futuro, sabes disso. Nada poderá ser igual, mas não quer dizer que signifique menos. É só diferente.

Só lamento que tenhas perdido a tua inocência e o brilho puro dos teus olhos.

E espero um dia passar por ti na rua e sorrir. Aquele verdadeiro sorriso que vem de dentro, por lembrar por segundos os nossos momentos.

Afinal não sinto que a última noite tenha sido um retrocesso. Foi sim o passo final em frente.
Afinal estava preparada e fez todo o sentido, embora eu não fosse a S.e tu estivesses longe de ser o L..


Boa sorte.'



publicado por Menina Boa às 21:42
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Domingo, 18 de Setembro de 2011
Ele

Tudo nele tresandava a capricho perfeito de menina mimada.

A príncipio não falava, e parecia-lhe (à Menina), que por vezes a olhava de uma forma 'estranha'.

Um dia, aproximou-se dela sem ser convidado. Disse: 'Olá', sentou-se sem perguntar, e foi assim que conversaram pela primeira vez.

Pouco ou nada tinham em comum e antes de perceberem, eram amigos.

Ele fazia parte de uma banda, cujo som e conceito musical era demasiado alternativo para ela. Falava muito sobre música. Falava muito sobre livros. Falava muito sobre cinema. Filmes que ela nunca tinha visto, livros cujos autores desconhecia, e bandas de quem nunca ouvira falar.

Culturalmente, era extraordinário o seu conhecimento, a sua paixão pelo mundo, a sua ânsia pela vida. Vivera já em diversos países e, com ela, gostava de partilhar experiências, factos e aprendizagens. E sempre que falava sobre um lugar descoberto, que conhecera e frequentara, afirmava-lhe com uma tremenda convicção:

'Um dia vou levar-te lá! Vais adorar, tem tudo a ver contigo.'

Incentivava-a a saber, a procurar, a conhecer mais. E ela nunca conhecera alguém com tantas certezas sobre si mesma.

Ele era assim. Preocupava-se, interessava-se. Brincavam e ela ria-se às gargalhadas.

Tão genuíno era ele, que a desconcertava.

E tão simples era ele, que pegava em pequenos autocolantes de emoticons, e lhos colava na mão quando a via em baixo.



publicado por Menina Boa às 01:27
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
A Menina Má

Depois daquela noite, a posição dela mantinha-se. Provavelmente por não se ter permitido mergulhar no próprio momento.

Continuou a fazer-se acreditar que nada poderia superar aquele disparo de pulsações, sentido na iminência 'de'.

Optou pela expectativa, não arriscando uma realidade. É certo que a roçou, quase a tocou. Permitiu-se toda a ansiedade, o desejo, sentir o coração prestes a saltar do peito. A fantasia. Elevar-se na adrenalina. Estar próxima, tão próxima, sem nunca tocar o céu.

Sentir apenas a vida.

 

Estaria arrependida? Não.

Por que haveria de arrepender-se, quando a mera recordação lhe deixava a pele em fogo?

Por que deitaria a perder o poder, a mente, a imaginação?

Por que motivo arriscaria deixar cair por terra uma expectativa tão elevada, de um momento tão desejado com aquela pessoa por quem o seu corpo ansiava, apenas pelo capricho da concretização?

 

Essencialmente egoísmo.

Escolheu manter o ávido e intenso desejo pelo fruto mais proíbido de todos.

 

Mas iria pagá-lo.



publicado por Menina Boa às 14:17
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Coisas que façam sentido*

Não existe sensação igual à da 'ideia de...'. O poder da intenção, da própria antecipação.

'E se(...)', provoca a descarga de adrenalina, sem a necessidade da concretização em si. E nada existe de tão saboroso, ou tão intenso, quanto essa descarga, esse rush.

 

Mas faz algum sentido sentirmos tão mais fervorosamente a mera possibilidade de algo, do que a sua concretização?

 

Num sentido mais lato, permite-me uma associação desta sensação, com a persecução de objectivos.

Não conseguimos prevalecer num estado consciente, coerente, lógico ou seguro, sem 'objectivos de vida'. Na realidade, necessitamos de raciocinar um fim  para nos movermos diariamente. Sem esta perspectiva, não faz sentido acordar e sair da cama pela manhã.

E depois de horas, dias, meses, anos...Após infinitos instantes vividos em busca de algo, um 'algo' que se vai adaptando, redescobrindo, reajustando, reencontrando, enfim, transformando tal como nós, morremos.

E tanto quanto sabemos, é aí que termina a nossa jornada.

 

Morremos tal como nascemos: Em busca de algo que nos permita ser mais.



publicado por Menina Boa às 23:59
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Foi assim que aconteceu*

É Agosto. A tarde está quente.

Saio para a rua ao encontro de amigos.

 

Estou grávida, pesada e gorda.

Vamos lanchar? - Propõe um deles.

Seguimos de carro, conversando e rindo.

De repente, chiar de travões.

Um grito! Polícia! Tiros! Tudo ao mesmo tempo.

Sou ferida num pulso, baleada. Era a D.C.C.B.

Não penso que morro,

Mas penso: 'Ela' já não nasce.

São tantas as balas sobre as nossas cabeças,

Que mais tarde, já no hospital,

Eu penso: Como é que ainda estou viva?

Sou presa.

 

E vem Setembro.

Outra tarde quente.

E 'ela' nasceu.

É a Alegria e a Esperança.

É o futuro enfim. A Vida.

 

A.T.



publicado por Menina Boa às 23:33
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